
CORPO E FENDAS
A exposição “Lírios, Rosas e outras flores”, da artista visual Gabi Coêlho, explora os temas da intimidade, identidade e fragilidade humana. Através de uma série de autorretratos, que a artista trabalha com tinta e texturas, ela performa o seu próprio corpo explorando os muitos limites possíveis da representação do feminino, não padronizado, e da própria mídia fotográfica. Suas pesquisas se iniciaram em 2018 e seguem uma história da arte onde atuaram artistas como Ana Mendieta e Helena Almeida, para citar apenas duas. Em suas explorações artísticas, Gabi transpõe propositalmente fronteiras, misturando mídias e construindo subjetividades alternativas. Suas imagens ultrapassam o que é considerado confortável quando imaginamos uma imagem do corpo feminino. Como diz um dos poemas que a inspirou, ela é caos e sonho: seu olhar é firme e seu grito é seco.
Ao se colocar diante da câmera, a artista é o sujeito e o objeto da obra. Sua história de vida reverbera em suas produções, mas não de maneira limitadora. Pelo contrário, se fotografar cria uma sensação de intimidade e vulnerabilidade que permite uma conexão profunda com o público. E ao encerrar seu corpo em fragmentos - de mãos, pés e olhares - e colocá-los em sequência, a artista, paradoxalmente, abre a imagem para uma conexão mais universal. Todes podem se sentir representades: é o corpo humano em agonia e em êxtase. Ao olharmos para cada foto nosso desconforto e inquietação são palpáveis, obrigando-nos a questionar nossos próprios códigos e limiares, a nos abrirmos à pluralidade.
Vale pontuar que a artista combina várias linguagens artísticas: a fotografia, a pintura, a literatura, o cinema e a performance. Ao usar esses recursos, Gabi mistura temporalidades e tensões. Suas imagens vívidas e tácteis quebram tabus, criam sensações, experiências e diálogos. Existe um limite? Em nossa contemporaneidade complexa, esse ensaio levanta questões essenciais do que nos permitimos, do que toleramos e até onde vamos, deixando-nos com uma compreensão mais profunda de nós mesmos e de nossa relação com o mundo.
Ioana Mello
Curadora
(para a montagem de "Lírios, Rosas e outras flores" no Sesc Centro Maceió, 2024)