imensidão íntima

IMENSIDÃO ÍNTIMA, da artista visual alagoana Gabi Coêlho nos remete à intimidade, à solidão e ao distanciamento do outro. Provoca nossos sentidos a visitar e perscrutar o espaço emocional em suas camadas invisíveis, que se representam como instalações materializadas num espaço arquitetônico, fronteiriço entre o público e o privado. É um convite para ir além do óbvio, ao entrar numa casa simbólica, em que os elementos aí dispostos tratam de uma possível relação entre o humano e seus múltiplos sentidos de (se) habitar.

Nesse lugar está a fotografia, que na poética de Gabi, aqui, se inspira em incômodos existenciais. O que apavora, silencia, grita, vomita, arranha ou apenas olha e é olhado. Quando se perde para se encontrar, quando se sente só consigo ou na multidão, ou aliás, como quem se coloca em confronto para se descobrir profundamente.


Contundente, voraz e incômoda. Toca superfícies de si mesma nessas imagens híbridas, que se constroem desconstruindo-se. Sai da perfeição técnica para explorar a inquietação estética, com o gesto pictórico, com o toque, com a ranhura e de tantas outras formas. Assim, também toca e atravessa dores, medos, incertezas para criá-las e recriá-las como imagens.


"Uma casa construída no coração

Minha catedral de silêncio

Cada manhã retomada em sonho

E cada noite abandonada"

Jean Laroche, em “Mémoire d’eté”


Os versos de Laroche, nas palavras de Bachelard nos avisam: “essa ‘casa’ é uma espécie de casa leve que se desloca, para mim, nos sopros do tempo”. Ao se transformar em mostra, as obras de Gabi, criadas a partir de tempos de isolamento, ultrapassam a nostalgia para se ressignificar em outras camadas temporais, quando agora é possível olhar para o espaço pretérito e questionar o que essa experiência, desde as clausuras e as aberturas, significam ao humano – indivíduo e coletividade.


A exposição organiza-se em torno de cinco ambientes criados como cômodos de uma casa, compostos por instalações que compõem cenários para uma persona, a eu lírica, que é a personagem central e autorreferente da obra da artista.


No primeiro piso, o espectador entra num vão amplo, com cômodos abertos e delimitados por cores e ambientes distintos, separados entre si. No segundo piso, o mezanino, há um único cômodo isolado, completamente fechado, o quarto, que só pode ser observado de fora por frestas. E a cor é sempre determinada pelo elemento pictórico central de cada obra fotográfica: amarelo, vermelho, verde e branco e preto. Esse discurso cromático individualiza cada ambiente da casa como lugar simbólico, um canto único.

Em todo o processo de criação, provocações poéticas inspiraram tanto a artista, quanto o processo curatorial, provocando uma busca contínua por um fio condutor sobre o privado que se esconde da vida pública e suas camadas de alteridade, faces ocultas do íntimo. O que se esconde ou que se finge não ser para o mundo externo, o ser socialmente construído como existência, quem sabe, o indesejável.


“Imensidão Íntima” é uma casa simbólica, uma tentativa poética de dissecar a própria intimidade em perspectiva dupla, de imensidão e contenção do desconhecido, do desconfortável, do inabitável espaço de si.


Karla Melani

curadora 

(para a montagem de "Imensidão Íntima" na Galeria de arte do Complexo Deodoro em Maceió, 2023)