
Lírios, Rosas e outras flores
Inspirada no poema “A flor e a Náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, a poética de Gabi Coêlho toca em lugares que geralmente nos apavoram, como um flerte intenso entre o sensível e o inteligível, sem esgotar, no entanto, questões que se alimentam e retroalimentam de incômodos existenciais.
Aguça e atravessa dores, medos e conflitos de modo contundente, voraz e incômodo. Ao criar autorretratos nesta série vibrante, a artista experimenta os próprios limites que perpassam corpo e emoções e que a maioria de nós tenta sufocar. Ela escreve: “Sou tudo o que há em mim, mas ainda sobra”, este verso de um poema própria que nomeia uma das fotografias desta mostra, seria o preâmbulo perfeito, caso fosse um livro. Resume em verso o que vemos em imagem.
Destemor, exagero e voracidade dialogam de maneira refinada, do ponto de vista estético e, que se contrapõem ao silêncio, sussurro e solidão que também nos invade sensorialmente nesta série. É quase um grito sufocando a audácia que se expressa no que vemos e sentimos ao encarar essas imagens. Nas palavras da artista “a série busca trazer o observador para dentro do quadrado preto no qual dispõe as imagens, fazendo com que consiga se imaginar tateando a tinta untada ou respingada na pele da autora, além de imaginar o cheiro e o gosto da tinta em sua própria boca” (2022:158).
As imagens criadas por Gabi se expandem para além do convencional, desafiando de modo técnico, estético e poético a imagem fotográfica tradicional. Alarga a fronteira entre as linguagens artísticas que explora em todo o processo e que a definem de modo tão singular. Ao utilizar o tátil, os líquidos e as ranhuras, trabalha em sentido oposto ao caminho que se imagina: da imagem ao poema e não o seu inverso. Ou seja, a artista prioriza a imagem e busca na palavra a contraposição que a tensiona e a torna ainda mais potente.
Além de estabelecer um viés narrativo enérgico e sensorial, cria uma contraposição essencial para mergulhar nos seus “Lírios, Rosas e outras flores”, que nos remetem a um mergulho em que podemos sucumbir em nós mesmos, assim como ela tateia as camadas escondidas e que aqui escorrem diante dos nossos sentidos.
Karla Melani
curadora
(para a montagem de "Lírios, Rosas e outras flores" no Sesc Arapiraca, 2023)