
A verossimilhança do risco na obra de Gabi Coêlho
A obra de Gabi Coêlho faz seu alicerce em um terreno em que o corpo vai para além da imagem para se tornar um lugar de questionamentos. Seu trabalho conduz o olhar do espectador do conforto de algo familiar para um estranhamento proposital, no qual o desconforto não é um efeito colateral da ação, mas a ação (na produção do trabalho) é gerar o desconforto, existe intenção.
Ao conduzir a plasticidade da sua obra no campo da fotoperformance e do autorretrato, a artista põe para jogo os limites físicos, simbólicos e sociais do corpo feminino, colocandoo em situações que no fazem sentir dor, nojo, risco e sensação de vulnerabilidade.
Destaco ‘sensação’ porque as imagens me provocaram perguntas insistentes: isso é real? houve manipulação digital? ela se submeteu de fato a essas situações? Entendi que, essas dúvidas não são algo que orbita a pesquisa da artista, elas fazem parte da potência poética da obra. Gabi age numa zona de ambiguidade, que coloco em um lugar híbrido, como um documento-encenação. Ela documenta um questionamento real, através de uma imagem que passa uma certa pseudo-dor, a partir de um movimento encenado (?), colocando o espectador diante de um impasse ético instável.
Independentemente do grau de edição, se é que ele existe mesmo, o que está em jogo é a verossimilhança do risco, a sensação de que o corpo ali apresentado poderia, de fato, ser ferido. Esse procedimento aproxima seu trabalho de uma tradição da performance em que a dor e o desconforto são estratégias para a crítica de uma realidade latente, e não mera espetacularização.
A boca, elemento recorrente e protagonista em suas imagens, é um ponto-chave dessa investigação. Freud, na teoria do desenvolvimento, diz que a boca é o primeiro território de descoberta do mundo, a fase oral, na qual o sujeito conhece, experimenta e se relaciona com a realidade por meio da sucção, da ingestão, do contato. Em Gabi, esse lugar inaugural do desejo e da curiosidade se converte em um espaço de conflito: lâminas, areia, fios, tesouras, cabelos e objetos estranhos ocupam a cavidade, transformando a ação de conhecer em um ato de risco. Descobrir o mundo pela boca, aqui, é também experimentar o incômodo de existir em um corpo feminino em uma sociedade que regula, vigia e pune esse corpo.
Em diálogo com a obra Vigiar e Punir, de Foucault, que fala do corpo em adestramento, treinado e tornado útil e dócil, na obra de Gabi ele aparece colocado em situação-limite, evidenciando as marcas dessa vigilância internalizada. Assim como em Foucault, não se trata apenas de um corpo punido, mas de um corpo que aprende a se vigiar. O desconforto provocado pelas imagens construídas pela artista nasce justamente desse reconhecimento: o de que a disciplina não vem apenas de fora, mas se instala no próprio corpo, transformando a experiência de existir, e de descobrir o mundo, em um campo permanente tensão.
Ao parar para observar cuidadosamente a obra de Gabi Coêlho, sinto que sua pesquisa é uma consequência de uma ação performativa que antecede a imagem, resultando em obras que recusam o belo pelo belo e apostam numa estética do incômodo. Ao se colocar simultaneamente como sujeito e objeto, a artista usa seu corpo como forma de questionar as estruturas que o atravessam. Saio dessa análise com algumas perguntas, mas destaco: o que a sociedade permite que o corpo feminino suporte, e por quanto tempo?
Jhonyson Nobre
Artista e Curador
(2026)